Maria Angélica De Moura Miranda
O primeiro carnaval que eu me lembro era no Coreto, na Praça da Matriz, a banda tocava e os meninos mascarados avançavam sobre as crianças. Eu morria de medo, até o dia que um mascarado chegou perto de mim e tirou a máscara, era o Toninho, filho da minha tia Filhinha.
Depois daquele dia eu pensava: “É o Toninho!”, toda vez que via um mascarado. À noite os meus primos mais velhos, Adelaide, Zélia, Cambeba e outros, iam no baile do barracão de madeira do Porto ou no CRES – Clube Recreativo Esportivo Sebastianense.

O Dionísio dos Reis, tinha chegado de Santos, transferido como carcereiro para a cadeia de São Sebastião e já participava dos blocos de carnaval desde que morava no Intaim Bibi em São Paulo. Dona Paula Gallani já tinha participado de escolas de samba em Santos, antes de vir para cá e estava sendo criada a COMTUC – Comissão de Turismo e Cultura de São Sebastião, que era comandada pelo Álvaro Dória Orselli, seu “Alvinho”, eles então perceberam a importância de organizar uma nova modalidade de Carnaval, o Carnaval de Rua. Contaram com o apoio do então Prefeito Mansueto Pierotti.

Na Vila Sapo, acompanhei o começo da primeira Escola de Samba de São Sebastião, ela começou na Rua Ilhabela, em frente a casa do seu Joaquim Libânio e da dona Pina, era 1970. A Jandira ajudava minha mãe nos serviços domésticos e me levava nos dias de ensaio, ela que me ensinou a sambar e a gostar de escolas de samba.
Essa Escola de Samba começava a se apresentar ali, depois seguia pela Rua Armando Salles de Oliveira e descia até a Rua da Praia recolhendo doações, pois naquele tempo não tinha dinheiro público para isso. Minha mãe deixava eu participar dos ensaios, mas no dia do Carnaval, eu não saia, pois só tinha 13 anos.

Na Rua Caraguatatuba a casa da dona Paula Gallani era o barracão da escola, as roupas eram costuradas ali, os adereços, chapéus e uma infinidade de roupas eram feitas por vários voluntários. Poucas pessoas se habilitavam a sair na escola, por isso, quando alguma moça da zona de meretrício pedia para participar, dona Paula deixava, e ajudava a fazer a roupa.

O Dionísio, um negro maravilhoso, sambista de mão cheia, conseguia convencer os homens a participarem da escola. Muita gente torcia o nariz por ver a diversidade das pessoas que participavam do carnaval. Com o tempo os turistas também começaram a querer participar da festa.
Já em 1972 comecei a participar do carnaval de rua, ensaiava e saia na Escola de Samba São Sebastião. Nesse mesmo ano comecei a trabalhar na Prefeitura Municipal e pude acompanhar o Carnaval de perto.

O Prefeito Mansueto Pierotti, trazia os enfeites de rua que ficavam no ano anterior em Santos, e o Tião Salomão, eletricista da Prefeitura, tinha que enfeitar a Rua da Praia com as lâmpadas e os enfeites que já vinham de lá. O Mansueto com a experiência que tinha do carnaval em Santos, percebeu que as escolas só ficariam fortes se tivesse competição.
Um dia, o Prefeito chamou o Osvaldo Tarora, que era dono do Supermercado e da Casa de materiais para construção Garça, e falou:

– Osvaldo, vc tem que passar a participar do Carnaval, faça uma escola de samba para vc também, com os seus funcionários.
Seu Osvaldo Maçao Tarora era japonês, mas nas suas empresas já tinha muita gente participando ativamente do Carnaval, e aí surgiu a Escola de Samba Garça, que foi campeã muitas vezes.

Em 1974 aconteceu o primeiro concurso de Escolas de Samba, com a participação da Escola de Samba de Ubatuba, Escola de Samba Graça, Escola de Samba São Sebastião, Escola de Samba Corintinha e Escola de Samba de Ilhabela.

Em 1976, fui porta Estandarte da Escola de Samba Borgoroso, fomos campeões naquele ano. Um trabalho impecável da Paula Gallani, que eu pude acompanhar durante um ano inteiro.
Dali em diante, outras escolas de samba foram aparecendo, representando os bairros, muitos blocos foram formados e o Carnaval virou uma grande festa.
Paralelo a isso o Carnaval do Tebar Praia Clube já havia se transformado no mais badalado do Estado de São Paulo, turistas e artistas da televisão vinham aos montes para participar, da matinê e do baile à noite.

O CRES, que na época fazia o Carnaval de salão da Prefeitura, também ficou famoso e muitas gerações brincaram naquela sede, que está na nossa memória. Hoje no lugar onde era o CRES está o prédio do Teatro Municipal.
Mais tarde, o Carnaval de rua, com blocos, e escolas de sambas, com a participação de moradores, veranistas e turistas, tomou uma proporção que ninguém imaginava!

No fim da década de 80 fiz um ofício para a (ASEC) Associação Sebastianense das Entidades Carnavalescas, levando a ideia de fazermos um livro sobre o Carnaval. Todas as escolas contariam a sua história e mandariam fotos, e nós entrevistaríamos Janine, Dionísio, Paula Gallani, Deocides, Ciro, Zildo, Zino e os outros criadores do carnaval que ainda estavam vivos. O projeto não saiu do papel. Que pena, mas deixo aqui a minha contribuição!